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O retorno da Deusa no dia da Anunciação

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Festa da anunciação, 25 de março, dia em que o arcanjo Gabriel desceu ao mundo dos Homens  para "fecundar", por via do Verbo, Maria com a semente de Deus, que nasceria dentro de nove meses, precisamente a 25 de dezembro - outra data especial no calendário de Outros Tempos. O deste dia é um marco primordial para as convicções cristãs, que para prevalecer por entre um arraigado culto banido, mascarou-se com o significado da maternidade divina, poucos dias depois do equinócio da primavera. Hoje, celebra-se, com menos pompa e circunstância, o Retorno da Deusa, montada no seu felino ou nos alvos gansos, a soprar do seu corno a abundância pelos solos que começam a regenerar-se do frio. Ela traz também no seu ventre o filho que tornará a primavera na estação germinativa.  Se é tempo de celebrar o mistério da Encarnação, que conferiu à Virgem o estatuto de "Mãe de Deus", também é o de saudar a portadora da energia crescente da luz e da vida. O seu espírito, outrora pe…

Hoje, falo da Mãe esquecida

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Ao segundo dia de março, mês dedicado a Marte, divindade romana, originalmente, protetora da agricultura, antes de personificar as forças marciais, apeteceu-me pegar e sentir a terra. Gosto do cheiro dessa massa negra,salpicada de granulos de vida e habitada por bactérias benfazejas que operam o milagre do brotar! Gosto também de me fundir aos elementos da Natureza e aos sentidos. Gosto de entrar no útero de uma Mãe em constante alerta e dedicação, e se revolta face aos maus tratos dos seus filhos. Gosto de imaginar o leite a esguichar dos seus mamilos - por isso achei graça à tradição das mães nómadas da Mongólia em limpar o rosto e as remelas dos bebés com o seu próprio leite- e de beber esse líquido reparador e vital. Só imagino...mas também não serei um bom exemplo para falar desses tempos de vinculação à figura materna, pois maltratei os mamilos da minha mãe...não sei, acho que fui tomada por um precoce impulso para a independência, para a liberdade, para a evasão...Talvez por is…

Tenham a coragem de Tyr

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"Quem quiser crescer tem de ir à procurar do lugar e das pessoas entre as quais as suas qualidades possam ser estimuladas e postas à prova.Tem de abandonar a sua casa, os seus hábitos e ir para onde se inventa o novo, onde tudo é possível. Mas para isso é preciso uma grande coragem, uma energia incomensurável", sugere Francesco Alberoni no seu livro Tenham Coragem. Vem isto a propósito ao ouvir os Wardruna, no tema dedicado a Tyr, o deus maneta dos povos germânicos, cujo mitologema está totalmente ensopado de alusões ao espírito intrépido, ao convite audaz de superação dos limites inerciais. É Tyr a personificação da audácia, ao sacrificar a sua mão direita nas fauces do lobo-gigante Fenrir, em prol da ordem cósmica, pelo menos até ao Ragnarok - o ponto de rutura, de degradação de um hierarquia não apenas de deuses mas também da própria humanidade. Tyr não se incomodou pela sua deficiência física, pois a sua convicção em que todo o sacrifício existe um bem maior e libertador…

Ressuscitar o "nosso" Balder

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Uma vez que vamos retomar ao ciclo crescente do Sol, que culminará com o regresso triunfal do astro da vida no solstício de verão, recordemos a morte do belo e adorado Balder, o mais amado de todos os deuses germânicos. Essência mais pura da luz do Sol, o filho de Ódin e de Frigga, senhora que regula a maternidade, tinha um caráter generoso, alegre e corajoso, alegrando os corações de todos aqueles com quem convivia. Quando começou a ser atormentado por pesadelos que lhe pressagiavam um fatal destino, solicitou ao pai que descobrisse o significado daquelas terríveis notícias vindas do inconsciente.

Ódin, lesto, montou Sleipnir e viajou até ao submundo para consultar a vidente que jazia morta em Helheim, mas mantinha a memória ativa sobre estas matérias sensíveis e irracionais. Disfarçado embrenhou-se pelas neblinas gélidas e infernais e despertou a feiticeira utilizando técnicas antigas de necromancia. Ódin, primeiro, quis saber por que razão havia salas no submundo preparadas com tama…

Vamos comer castanhas da vida

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Vim matar saudades comigo mesma e com aqueles que lêem o que por aqui escrevo, neste cantinho virtual, um cantinho que está cada vez mais perigoso para a saúde mental da humanidade. Não, não há riscos complicados se se predispor a espreitar esta janelinha que abri para o mundo que (ainda) não vejo, mas contato com gosto. O contato!!! Palavrinha mágica, que se vai perdendo à medida que as relações se extinguem na individualidade egoísta, materialista, consumista e possessiva. Não julguem que as festinhas pontuais, a assinalar marcos concretos do ano, outrora prenhes de significado coletivo, servem para o pessoal sentir que até convive bem, alegremente em grupo. Acho que essa hipocrisia incomoda bastante São Martinho. O santo altruísta, que divide a capa com o mendigo a tilintar de frio, produzindo o efeito taumaturgo de um breve verão para aquecer os desprotegidos. As fogueiras de São Martinho, os magustos, as primeiras da época do frio, do escuro, da entropia, criam a resistência em m…

Urda chama-nos para mais uma volta

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O calendário pagão assinala que a 29 de agosto a roca de Urda é o cetro mais importante deste dia, ao cair do pano do mês consagrado ao imperador Augusto. A irmã mais velha das três Nornas simboliza os desígnios do destino, cujo fio de prata se alisa, desde o nosso nascimento, na Grande Roca cósmica. É Urda que nos mostra a teia do nosso passado, mostrando passo a passo os nossos feitos, erros, escolhas feitas e faz-nos encarar de frente com tudo o que fomos construindo e questiona se é neste caminho que pretendemos persistir ou aproveitar a nova rota que elas nos oferece. É poderosa, nem os deuses mais fortes conseguem ludibriar a sua vigilância e é a sua mão que se entende na hora da nossa despedida deste mundo. É Urda quem alimenta e regenera Yggdrasil com a água pura e cristalina da sua nascente, junto a uma das raízes da Árvore Cósmica que se une a Asgard, a residência celeste.A função de Urda, a Senhora da Origem, sobre a nossa existência assemelha-se ao ciclo do linho. Um proce…

À procura dos anões

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Ao percorrer terras mineiras, em Barroca (Concelho do Fundão), onde do seu ventre saíra volfrâmio para gáudio do sustento económico do país, veio à minha lembrança a labuta dos seres minúsculos a quem Ódin deu corpo e existência senciente. Os anões, ou dvergars na língua germânica, de inócuas larvas que consumiam o corpo sacrificado do gigante Ymir no que se transformou no mundo terrestre e em todos os elementos que o compõem, a homúnculos essenciais ao pulsar de vida no subsolo. No submundo em que a luz dificilmente penetra, estes seres de Svartalfaheim forjam a massa subconsciente que enriquece a alma humana e fertiliza a matéria negra da qual se extrai o nosso sustento alimentar. A negritude que oculta os seus rostos e a fraca pujança física condicionam os dvergars a uma presença incompreensível sobretudo para uma sociedade autocrática, estruturada de molde a convencer-nos que não vale a pena escavar bem fundo do que temos dentro, o tesouro oculto que faz parte do nosso poder pesso…