Da terra das bruxas, parti com o riso de Baubo

Em pleno dia, sob a força do calor do Sol, surgi de surpresa, a sacudir a letargia da rotina do Terreiro das Bruxas. A povoação da freguesia da Moita, no concelho de Sabugal, cruzou o meu caminho em direção à misteriosa Sortelha, terra dos lagartixos, onde se partilha a lenda da Dona Lopa. Mais uma versão, entre muitas, de mulheres do Outro Mundo persistentes  em afrontar os ditames do Cristianismo que as flagelou em superstições. Dona Lopa está na mesma linha da Dama de Pé de Cabra, uma lenda arcaizante de recordações de glória feminina, sem diferenças, nem subjugação. Héteras que o entendimento puritano escarneceu com promiscuidade e incompreensão do poder transfigurador da sexualidade. 
Naquele cruzamento, outrora conciliábulo de mulheres de poder, restam memórias amedrontadas por manifestações de espectros que penetraram no subconsciente dos seus habitantes como meros sugadores de vitalidade. Naquele lugar de festim extático, Hécate fora evocada às horas abertas, patrocinando voos inebriantes, estimulados por unguentos mágicos. Elas riam e dançavam livremente: o pudor era desconhecido e a alegria, a panaceia ideal para o espírito. A recordação dessas reuniões negras de Sabbat leva os locais a persignarem-se, num apelo para que elas não despertem do seu sono. 
Recordam em voz muito baixa, a olhar em volta, esses encontros, à meia-noite, o momento em que nos céus se abriam os portões da folia das mulheres de livre pensamento e conscientes do valor do seu corpo, como altar-mor de um reino isento de pecado. Não conhecem, nem querem saber de pormenores, das razões para o que se tornou um anátema para a terra. Muitos são os peregrinos em busca das festas das bruxas, nessa terra, cuja definição administrativa e geográfica não a deixa cair no olvido. 
Tive a sensação de ouvir os seus murmúrios encantatórios, a hora da claridade alta, sorri-lhes, porque entendia-as. Porque o meu âmago está-lhes vinculado. Porque também gosto de exibir o meu corpo como se fossem nuvens de algodão, leves e livres. Porque o riso é o grito de uma alma sincera e a chave que abre a porta à vida.
Não era Baubo, a deusa grega arcaica do sorriso contagiante e sagrado? Foi Baubo que tranquilizou o coração apertado de Démeter, a mãe sofredora que perdera a filha para o Hades. É Baubo que alivia a humanidade do sofrimento, afirma a vida e vence os temores da morte e da esterilidade. O riso que a religião do crucifixo condenara e assinalara como sintoma de insanidade e apanágio das mulheres vãs. Rir era pecado!!! 

A Deusa Grega do Ventre não possui cabeça: o seu rosto é desenhado no local de gestação!! As nossas bruxas, as mulheres que atravessam o mundo de cá e o de lá, evocavam o Diabo nas encruzilhadas (outra reminiscença de crenças Celtas e Romanas) e o prendiam entre-pernas - a sede do prazer, do êxtase.
Deixei para trás Terreiro das Bruxas, de sorriso aberto e de confissões de manifestações espectrais, de casas assombradas e de doenças infligidas por espíritos. Foi ao encontro da Dona Lopa e dos chinelos que escondiam os pés de cabra.

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