Vamos seguir a "nossa" estrela
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Insculturas rupestres da Fechadura |
Se os sábios seguem as estrelas, então os pastores da pré-história eram detentores de uma sapiência inata, qualidade que desapareceu da intuição da maioria dos seres humanos da era espacial e da nanotecnologia, de cujo olhar desapareceu o reflexo das estrelas. Fábio foi atrás de uma lenda de um pastor que se deslumbra com a beleza de Aldebrã e decide ir ao seu encontro. Quando chega à serra, sobre a qual cintilava a referida estrela, batiza-a então de Serra da Estrela.
E se na base das motivações criativas dos indivíduos que viveram nas encostas do agora denominado Picoto do Rainho fossem parecidas, ou a expressão de uma manifestação divina? E se uma estrela de uma dada constelação constituísse um sinal específico num determinado período sagrado do ano; e esses homens do Calcolítico a marcassem na pedra, tal como aconteceu em Pala Pinta, onde ficou registada a passagem de um cometa? ("Iluminação" de outro português: Gonçalo Pereira). Encontramos tantos episódios em que a estrela é a personagem central, inspirando espiritualmente peregrinações transcendentes, indicando lugares de poder numinoso, onde se ergueram templos que o Cristianismo reformulou de acordo com os seus dogmas patriarcais.
A estrela foi absorvida no atavismo coletivo como lembrança das almas dos mortos providos de novos corpos astrais, que nos protegem no espaço sideral, preservando a força do culto dos antepassados. Há algo de extraordinário, sobretudo mistérico, naquele ponto aparentemente fixo que emana uma luz desafiante, como se fosse uma entidade independente do Sol. Por que razão no passado, que nos parece tão longínquo, esse ser celeste se manifestava e impelia aquele que a soubesse interpretar à caminhada transfigurativa!!??? Porque agora recusamos a "ver" com os verdadeiros olhos que desvelam o véu da Rainha dos Céus.
Relicário do Apóstolo Tiago |
Prisciliano conciliou a religião emergente à liberdade
Fontanário dos Cavalos Santiago de Compostela |
sacerdotal feminina que transitava do culto pré-cristão à Deusa. Antes de se tornar Santigo de Compostela, este canto noroeste da Ibéria era o santuário original da celta Brigid, "A Brilhante". Os romanos apelidaram-na de Dea Brigantea, e dela sai o topónimo primitivo, Brigantium; a concha de vieira era o seu símbolo yónico (o Grego Kteis «vieira», «vagina», significado utilizado para Grande Mãe ou Deusa. Sintetiza a espiritualidade, criatividade, artes, feminilidade, beleza e mistério). O nascimento de Vénus de Botticelli e de Ticiano ilustram na perfeição a associação da concha da vieira à fecundidade ligada ao prazer sexual, à prosperidade e à sorte, evocando as águas de onde provém. Mais impressivo: o convite ao renascimento pelas águas salgadas, ao retorno do abismo oceânico, à imersão no líquido dissolvente das formas, ao tanque celestial onde o indivíduo vence a morte e de lá emerge como novo Ser espiritual. A concha da vieira, estilização da "estrela" Vénus, simboliza a sepultura uterina, a gruta do inestimável tesouro do "Homem Despido". A nudez translúcida de Vénus aquando do seu parto, a mesma vivência do peregrino quando alcança a última pedra de Finisterra, no culminar da caminhada seguindo a orientação Este-Oeste da Via Láctea: a leste nascera como mortal e a oeste despede-se das roupagens de carne nas águas vigiadas por Vénus poente.
No Fontanário dos Cavalos, no centro da Praça das Pratarias (designação tão apropriada), altiva e resoluta a Estrela, lembrança permanente da evocação celeste da Deusa, aponta um foco de luz em direção ao pórtico desde o ponto do seu crepúsculo.
No Fontanário dos Cavalos, no centro da Praça das Pratarias (designação tão apropriada), altiva e resoluta a Estrela, lembrança permanente da evocação celeste da Deusa, aponta um foco de luz em direção ao pórtico desde o ponto do seu crepúsculo.
O renascimento é uma festa em tons sanguíneos, pois é essa a promessa realizada pela Vénus nascente. A estrela da manhã chega antes do Sol e lança no céu a cor vermelha do seu sangue do parto do novo Ser; anunciadora do renascimento perpétuo do dia, símbolo do princípio da vida. A Oeste, ela antecipa-se à Lua e mostra o caminho às suas irmãs estrelas e seduz-nos ao mergulho na sua gruta de deleites.
A finalizar, recupero a estrela que me sussurrou encantamentos vários, conduzindo a minha intuição a outra estrela, no monte de Nossa Senhora da Confiança, em Pedrogão Pequeno. Ela contou-me que se manifestara pela força das preces de um fidalgo injustamente encarcerado, transmitindo-lhe esperança e confiança de que seria salvo. Em agradecimento, o fidalgo mandou erguer uma igreja a Ela dedicada: à Senhora da Confiança. O templo cristão esconde, porém, vestígios de um castro, onde, provavelmente, se cultuara uma divindade feminina.
Vamos, então, à procura das outras estrelas "pendentes", e contar os seus segredos pristinos????
Vamos, então, à procura das outras estrelas "pendentes", e contar os seus segredos pristinos????
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