À volta da fogueira

Agora que nos aproximamos do regresso da bela e formosa primavera, estejamos atentos ao canto do galo que entoa silencioso no nosso âmago. Lá longe, nas mais recônditas profundidades do nosso Ser, existe o imperial macho galináceo que delimita o seu poder territorial, enquanto permanecemos surdos ao seu chamamento. O galo é uma espécie de simbolismo zoomórfico do fogo. E não julguem que se trata das labaredazinhas a que achamos graça e nos faz sentir aconchegados no frio do inverno. É o fogo que arde cá dentro, o da paixão por nós mesmos. Sim, é verdade, a expressão ígnea da vontade - a nossa, não me refiro à dos que os outros nos impõe. Com o galo aprendemos a ser orgulhosos pelo o que somos e não com o que nos tornaram. É o orgulho indefetível ante as investidas dos outros. O orgulho alicerçado, fortalecido e expandido dos povos do Norte, que pugnaram até à morte pelo seu espaço, pelo seu território e sem ceder perante o invencível exército romano.
No furor daqueles longínquos guerreiros arde uma imensa vontade de afirmação, de independência e um paradoxal respeito pela Natureza, pela mulher. O fogo que incendeia o peito de homens de aparência rude, estranha, desorganizada é tão ou mais contínuo quanto o das tochas das virginais Vestais. É puro, é genuíno. Esta força expansiva constrói e destrói, mas é bom que assim seja, porque há sempre renovação, esperança. O ciclo é respeitado e segue o seu curso naturalmente.
O fogo é a manifestação mimética
do Sol no plano terrestre, tendo, por isso, uma conexão solar. E desta forma cicatriza e faz brotar os sinais vitais da terra. As fogueiras da noite de Valpurgias anunciam a reconstrução da ordem a
partir do Caos do período escuro do inverno. É a instalação de uma nova forma e
de uma nova ordem por uma determinada energia. À sua volta giram corpos quentes e despedidos de homens e mulheres que festejam sem pudor os mistérios da sexualidade. O ato sexual não é uma ação mecânica e fisiológica, aqui torna-se sagrado por invocar um poder criador e estimular as forças produtivas dos solos. A união do homem e da mulher funde-se aos ritmos da fertilidade da vegetação, dos animais e todos caminham juntos numa orgia cosmológica. Nada está separado, tudo é concomitante num momento de felicidade em que todos estão em igualdade.
Durante a velada das fogueiras
no Yule, as comunidades depositam no crepitar dos tições a esperança do advento
do Grande propiciador que vence as trevas e restabelece a celebração da vida e
da matéria. Sigilo do fogo primal, que se encontra ainda num estádio precoce de
desenvolvimento, a runa Fehu é fonte potencial que tanto tende a fortalecer como
destruir. É nela que está contida a energia palingenésica do Sol, que regressará ao cantar do galo da estação luminosa prestes a irromper pelos céus negros.

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