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Memória: o mais belo espólio humano

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A redescoberta de mais um pequeno pedaço da nossa longa memória devastada pela indiferença a que o progresso nos foi viciando com distrações superficiais, efémeras e vazias, enriqueceu o dia consagrado a São João, o santo solsticial anunciador do Agnus. As fiandeiras cósmicas, as Nornas, demonstraram, mais uma vez, que sabem como deslizar o fio de prata pela roca e o fuso, orientando a minha intuição até às raízes da atual cidade da Maia, e promovendo um encontro intemporal com alguém que define o contacto com os artefactos como de "conexão emocional". A atenciosa senhora (a quem não perguntei o nome, porque na empatia dispensam-se apresentações) do Museu de História e Etnologia da Terra da Maia revelou-me o quanto o "maravilhamento" (expressão da sua autoria) provocado pelas peças aparentemente inertes em cada sala de exposições a faziam "entrar" na memória residente nelas.  A falta de sentido de preservação tem nos feito perder a magia emocional do h...

Redespertar da magia das plantas

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Ainda nos restam duas semanas para desfrutar de junho, mês dedicado à deusa romana Juno - a congénere da grega Hera -, a Senhora soberana dos céus do período em que a luz é mais intensa, mas enfrenta o regresso do minguar dos dias. Por cá, por estas terras outrora pisadas pelos valorosos guerreiros Lusitanos e Galaicos, a atmosfera envolve-se de fragâncias afrodisíacas em honra dos santos populares que a demopsicologia sub-repticiamente adotou para manter vivas lembranças de festividades pagãs. A magia das ervas retorna agora do seu esconderijo subterrâneo para nos inebriar com sensações psico-sexuais libertadoras. Anda no ar o aroma da cidreira, do rosmaninho e toda a panóplia de plantas aromáticas com as quais purificamos o corpo, expurgando os males que nos condicionam. Sorrimos, sim, e abrimos a alma à sabedoria presa no inconsciente coletivo que os nosso antepassados preservaram por entre o rigor inquisitivo da Igreja. São Martinho de Dume, nos...

Em maio as fragrâncias são prazeres

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O Sol começa a ganhar força a meados de maio, sob a gerência da bela Maia, a irmã mais velha das Plêiades, progenitora de Mercúrio. Ainda embalada pela intervenção no restaurante celta Endovélico, lanço aqui algumas sementes ao corpo fértil da deusa romana, cuja essência camuflada no costume popular de enfeitar as janelas e as portas das casas com flores amarelas de giesta. Na suavidade da claridade da época, em tempos remotos integrado no corpus de ritos orgiásticos, desabrocha no peito de cada jovem os prazeres do regime de maternidade. A Mãe-Terra manifesta-se em qualquer um dos seus avatares em eflúvios ctónicos que nos recorda a reverência pelas dádiva da Natureza. Os ramos das Maias, protegem-nos das forças caóticas substanciadas na figura do Diabo, vulgo carrapato, e atraem a força fálica dos raios solares. As festas populares de maio são disfarces de cultos hetairistas suplantados pelo regime de paternidade, do Deus uraniano, intangível, por i...

Celebração da Primavera em Viana

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Viana do Castelo ergue-se nas ruínas de uma citânia ibero-celta e no topo da colina virada para o rio Lima, o altaneiro santuário de Santa Luzia, a padroeira da vista, pela graça concedida ao capitão de cavalaria Luís de Andrade de Sousa, acometido de grave doença oftalmológica. Não terá sido essa a razão que Guilherme Guimarães considerou os olhos como uma das partes do corpo humano uma referência simbólica do corpo Mãe-Terra. Julgo que o jovem, uma das testemunhas da dança de integração, no culminar do encontro de Celebração da Primavera, se referia à dimensão espacial que a visão abarca desde a linha do horizonte, lugar de repouso do Sol, ao berço onde este renasce diariamente retemperado pelas águas salinas. A visão é um dos sentidos físicos mais requisitados, excessivamente operados no sentido de fornecer estímulos cerebrais, ocultando e renegando os restantes sentidos que o complementam e enriquecem a experiência sensorial. A este universo de "sentidos", acresce o ...

Sigurd: o modelo guerreiro-herói

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S igurd é um jovem de grande talento físico e mental, sendo o  paradigma do heroísmo dos guerreiros nórdicos. O filho de Sigmund inicia a demanda pela imortalidade no momento em que assassina o dragão Fafnir, antes um anão transformado em besta serpentiforme, devido à ganância que o prendeu ciosamente ao tesouro do pai (que ajudara a matar), e assim se tornou num símbolo de materialidade. A avidez de Fafnir afastou-o da realidade, isolando-o no terreno árido e tenebroso Glittering, no qual ninguém se atrevia a entrar. Sigurd é incitado a matá-lo pelo irmão de Fafnir, Regin, um ferreiro fantástico e versado em magia. Uma vez que exprime um aspeto terrestre-animal, pela agressividade como força da manifestação de um génio das trevas, estes monstros constituíam um excelente desafio iniciático para um povo predisposto a façanhas impossíveis. O lema de vida dos antigos povos de raiz germânica era um intenso orgulho na coragem, que marcava um ponto de mutação da condição humana p...

A Pedra da Senhora

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O preâmbulo de 21 de setembro de 2015, pelo roteiro das pedras de Vila Nova de Gaia, deixou-me água na boca a propósito do Santuário da Nossa Senhora da Saúde, em Pedroso. A orografia deste espaço sagrado, agora cristão, imprimiu na minha alma o apelo de uma segunda visita, desta feita de regaste da entidade divina outrora orago naquele lugar fortemente gentio e de  reminiscências  do culto da Mãe Terra. Esse maravilhoso corpus mitológico de Mouras Encantadas que confere intensa vibração ctónica a Portugal, antes Terra de Ofiusa, a grandiosa Serpente Negra dormente no nosso subterrâneo antropológico. À lenda das pedras trazidas pelo mar que configuram o círculo de pedras sobre o qual assentam os alicerces da igreja, aditou-se um elemento fulcral para a compreensão das  fervorosas  orações femininas, que pude testemunhar no domingo - o dia de re-ligação à fé: a aparição da Nossa Senhora num penedo e com ela a inefável cobra.  A Senhora e a cobra os dois elem...

A Mãe de Água

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Damos pouca importância ao que está por debaixo da imensa superfície em que colocamos os pés diariamente, na azáfama do trabalho, das compras do supermercado, na corrida louca pelos preços sensacionais da roupa na Primark, etc...etc e tal. Andamos sempre de cabeça no ar, a olhar para o "nada" ou para o "tudo o que não interessa". Felizmente, vou-me focando nos detalhes, nos pormenores que preenchem a alma e nos oferece um leve respirar do Outro Mundo. Pois é desse "Outro Lado" que nos chegam as melhores vias e intuições orientadoras do nosso real caminho. Num desses dias de observação, decidi dar a devida atenção às ruínas da “Mãe d’ Água de Mijavelhas”, que as obras do Metro do Porto puseram a descoberto e reconstruíram para nos deixar um legado, até à data ocultado, da memória etnográfica da cidade do Porto. Esta bela e granítica metrópole crescida sobre uma série de veios de água subterrâneos, alguns dos quais amiúde utilizados pelos romanos como rotas...