A Linguagem Mágica no Silêncio das Pedras

 


A arte da adivinhação é o modo que nos permite comunicar diretamente com as dimensões cósmicas em busca de sinais sobre o Destino, aproximando o Mundo Divino do mundano. O medo do desconhecido e a incerteza quanto ao futuro geraram no ser humano uma intensa necessidade de penetrar na dura resistência das teias ocultas tecidas pelas Leis Universais. O conhecimento implica ter acesso ao poder e à possibilidade de o Homem controlar o rumo da sua existência em função das próprias conveniências. Seja qual for o processo oracular, o simples ato de lançar as sortes abre as portas da realidade ordinária à expansão percetiva aos mundos suprassensíveis. A aprendizagem da linguagem do meio-ambiente natural e cultural instruiu o Homem primitivo a codificar hieraticamente as suas inquietações mágico-religiosas em suportes orgânicos, como a madeira e a pedra, tentando personificar a presciência dos Arquétipos Ancestrais dos Deuses, a imprimir as suas mitologias em símbolos milenares e, assim, a criar intuitivamente uma proto-escrita imagética.

As Runas inserem-se neste sistema arcaico de comunicação visual que rompeu com as barreiras entre o mundo profano e o mundo sobrenatural, ampliando a consciência humana à compreensão de uma consciência superior. Na tradição mítica, é a maior e a mais sagrada das doações de Ódin aos seus filhos terrenos. No autossacrifício na Grande Árvore Cósmica, Yggdrasil, o Pai da humanidade e dos Deuses, resgatou e gritou em profundo êxtase os sons primevos de um complexo conjunto de uma linguagem que respira no cerne de um universo transumano. Cada símbolo oculta um sentido, uma força divina, um elemento natural, uma cor e um som — elementos que, quando percebidos e integrados no corpo, ressoam as mais sublimes vibrações da nossa alma. Nesta viagem de descoberta, o ego essencial refresca a nossa vivência psicológica.
A aceitação da existência deste sistema de sinais milenares, que favorecia a comunicação entre os indivíduos, levou os historiadores a rebaterem a ideia de que o homem pré-histórico estava confinado ao analfabetismo absoluto. A definição correta seria um período de não-literacia, pois o desconhecimento das letras ou das palavras não implicava a ignorância ou a incapacidade de comunicar. O espírito criativo do Homem primitivo havia compensado essa ausência de sintaxe com a criação de um puzzle perfeito de ideogramas e sinais. Tratava-se de um mecanismo linguístico comum que ajudava a identificar os fenómenos que afetavam o meio-ambiente e a estabelecer conceitos sobre as entidades que os produziam. Era uma herança de inestimável valor para as comunidades arcaicas, que depositavam toda a sua vida na perícia e intuição de indivíduos com dons especiais que lhes abriam as portas ao divino. Os povos que habitaram a velha Germânia, descrita por Cornélio Tácito, e a península escandinava desenvolveram, a partir daqui, a sua linguagem particular.
Compreendendo que não poderiam dominar o raio e o trovão, nem tão-pouco fazer face à doença e à morte, os sábios antigos descodificaram e estruturaram uma linguagem ideográfica que fosse percetível ao entendimento humano. Os 24 sigilos rúnicos do Futhark Antigo serviam de suporte a um diálogo intuitivo com as dimensões divinas e eram uma maneira de perpetuar a identidade de um povo, representando os mistérios e enigmas do temperamento dos deuses sobre a realidade humana. O uso destes caracteres implicava uma espécie de sacerdócio, um poder espiritual manifestado após uma iniciação, cujo conhecimento era guardado por uma classe de eleitos.
As runas incorporam um nome, uma ideia e manifestam a sua energia pelo seu aspeto gráfico e não por via do material em que são gravadas. Estes selos estão ligados ativamente ao subconsciente. Como refere Austin Osman Spare no belo Book of Pleasure, a criação de sigilos mágicos sustenta-se em fórmulas que se enriquecem no subconsciente. A vontade exerce um papel determinante em todos os processos mágicos e transformativos, pelo que a sua projeção, moldada segundo a concentração, torna o nosso subconsciente mais recetivo e estimulado a unir-se às dimensões suprassensíveis, provocando uma abertura no tempo e no espaço.
Historicamente, a etapa inicial de codificação deste pensamento mágico-religioso deu-se na Idade do Bronze escandinava. Através de petróglifos gravados em mamoas funerárias e lugares de culto, os povos agrários e pastoris criaram um sistema de símbolos destinado a prever a atuação dos elementos naturais em benefício próprio dentro do seu âmbito rústico. Nestes fragmentos antigos, os símbolos gráficos partilhavam o espaço com figuras antropomórficas em encenações de dramas abstratos, lançando estes povos numa jornada iniciática pela complexidade do sagrado. Séculos mais tarde, numa segunda etapa evolutiva já na Idade do Ferro, esta matriz de sinais receberia a influência e a inspiração da escrita Etrusca a sul dos Alpes, refinando-se no alfabeto rúnico que hoje conhecemos.
O contacto com o advento da escrita trazido pelos etruscos e romanos, associado à influência grega na sequência das trocas comerciais, impulsionou a formação de um conjunto de ideias gráficas cuja origem exata ainda ninguém conseguiu garantir com precisão. A escrita rúnica difundiu-se com os fluxos migratórios, a aculturação e a exogamia dos povos Godos ao entrarem na Escandinávia no século II d.C.. Sendo estes elementos gráficos usados por todas as tribos, as runas foram concebidas ao homem para que ele pudesse participar no processo contínuo da criação: a linguagem sagrada que permite a união e a transformação. Neste panorama, os Godos — oriundos das regiões meridionais da Escandinávia, fixados inicialmente junto ao Vístula no século I a.C. e, dali, movidos em direção ao Danúbio como ponto de transição do seu curso migratório — assumiram-se como os principais agentes deste legado.

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