O Altar do Outono e a Roda de Jera: O Ciclo Eterno da Colheita e do Recomeço

Em breve, deixaremos de apreciar o beijo das borboletas, de sentir a fragrância dos campos verdes. O outono vem a caminho e traz o acobreado das árvores, o sabor doce dos figos e o cheiro da castanha assada. Entramos em contagem decrescente para o equinócio de outono, aquele momento em que fechamos o período da colheita de mais um ciclo de vida. É um processo endógeno, de regeneração. Em breve, Zisa, a deusa da fertilidade cultuada na antiga Zizarim, atual Augsburg, ergue-se do seu trono no alto da colina, para espalhar pela terra as sementes germinadas na pinha que guarda nas suas mãos, como personificação do potencial de todas as formas de vida.
Esta transição profunda encontra o seu espelho arquetípico na runa Jera. Proveniente do gótico Jêr, com equivalentes no Jâr (Antigo Alto Alemão), âr (Antigo Norreno), Gêr (Antigo Saxão) e no inglês atual Year, a palavra significa, em todas estas línguas, Ano ou Estação. Jera é a própria Roda do Ano. Sob esta condição, a passagem das estações não só discriminava o calendário das atividades jurídicas, económicas e comerciais ao longo do ciclo anual, como recordava o compromisso sagrado dos homens e mulheres para com os deuses, cuja memória era atualizada nos rituais a eles dedicados.
O Livro de Leis da Islândia (séc. XII) descrevia o ano dividido estritamente em duas metades: o inverno e o verão. Segundo Jacob Grimm, estas metades no Anglo-Saxão e no inglês antigo designavam-se por missere ou misseri, conceito visível em poemas anglo-saxónicos e em passagens clássicas do Beowulf. O verão e o inverno definem a divisão dupla do Ano, e os respetivos solstícios marcavam o compasso das estações, ou seja, a contagem do tempo mundano. Na interpretação dos Poemas Rúnicos, Bruce Dickens especifica que Gear originalmente significava a fase quente do ano, o crescimento das sementes, bem como se referia ao período de inverno, representando o ano inteiro. Paralelamente, a palavra escandinava ár refere-se aos produtos do verão, à abundância e à fartura.
Jera simboliza o curso dessas duas metades do ano. Em cada fase de transição, a tradição evoca uma luta ciclópica entre os gigantes do verão e do inverno, que se defrontavam pela conquista do trono do mundo: Sumar, filho de Svâsuðr (nome que deriva do godo svâs, «propício», «o que abençoa e é bem-aventurado»); e Vetr, descendente de Vindlôni Vindsvalr («o que traz o vento gélido»). O inverno avança seguido pela caravana de geada e neve e pelos gigantes dos tempos antigos que declaram guerra ao estio. Enquanto o verão veste, dá forma e insufla o sopro de vida, o inverno surge como o vilão que saqueia, despe e rouba a existência. Esta dualidade estende-se ao quotidiano: o próprio dia é dividido em duas fases de 12 horas, espelhando o ano como a medida de um processo cíclico completo. Na Era Viquingue, existiam dois meses, segundo o estilo romano, que ancoravam esta divisão: Litha, no verão (junho e julho), e Giuli (dezembro e janeiro), no inverno.
É em Jera que se prepara a colheita, o “tempo dos frutos” (herbst), simbolizando o ato futuro da recolha dos grãos maduros e da apanha da fruta. Esta runa anuncia a metade do ano fria e estéril e, em simultâneo, promete o regresso da vida na metade mais brilhante e quente. É, pois, o ponto de transição contínua, de movimento de fluxo e refluxo, a alavanca do processo de reconstrução e mudança. Jera simboliza a renovação após a provação ou o enfraquecimento durante um período de força aniquilante.
Para enfrentar com esperança esta fase perigosa, as comunidades antigas solicitavam o apoio dos deuses derramando sangue sacrificial. A inscrição rúnica de Stentoften (século VII) testemunha essa cooperação poderosa entre os homens e as potências divinas através de um ato de oferenda: “com nove corcéis, com nove bodes, Haþuwulf ofereceu ‘J’ (Jera, bom ano, colheita) um ritual de fertilidade”.
Historicamente, a recolha dos cereais era feita por volta dos finais de agosto, prolongando-se até setembro, precisamente quando o sol começa o seu percurso descendente, prenunciando a vinda do inverno. Por sua vez, as sementeiras começavam no dealbar da primavera, em março, quando o astro-rei se enche de vida no céu, obedecendo ao comando da outra metade do ano. Na época de abolição do tempo, assistia-se a festas de Ano Novo que ritualizavam a renovação das reservas alimentares, num ato instintivo de preservação da comunidade. Nestes momentos de transição e aparente caos, permitiam-se excessos orgiásticos com a finalidade de instaurar a fertilidade coartada. Organizavam-se alegres banquetes onde se esbanjava cerveja, imitando o arquétipo divino que assegura a prodigalidade das messes. Ao celebrarmos a chegada deste outono, sentamo-nos à mesa com os antigos, erguendo os mesmos cornos de hidromel ou cerveja, celebrando a abundância da colheita e aceitando o recolhimento necessário que antecede o renascimento.

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