O Encontro com o Bisonte e o Ímpeto de Uruz





Há um silêncio denso que se instala quando nos cruzamos com o olhar de um gigante antigo. Não falo de uma viagem às profundezas da floresta polaca de Białowieża, mas de um instante suspenso a poucos quilómetros do Douro, ao percorrer os trilhos verdes do Parque Biológico de Gaia. Ali, recortado contra a vegetação, repousa o bisonte-europeu (Bison bonasus). Estar diante daquela massa muscular e daquela presença magnética não é apenas observar a fauna; é abrir uma fresta no tecido do tempo e encarar, frente a frente, a energia primordial de Uruz.

A runa Uruz significa cura, saúde mental e física, vigor, impetuosidade e virilidade. O seu nome provém do gótico urus («auroque»), o animal de elevado porte físico e antecessor do touro, já descrito por Júlio César como dotado de excecional força e velocidade. Ao olhar para o bisonte que pasta domesticado pelas cercas do Parque de Gaia, percebi que ele é a última memória física e palpável desse auroque arcaico que povoou as manchas verdes da Europa, cuja força não-domesticada sobreviveu no touro — o animal simbólico das funções de fecundação, de criação e do ímpeto vital.

Estar diante daquele cercado fez-me recuar aos ritos de passagem dos jovens germânicos. As caçadas ao auroque (extinto na Europa em 1627, com a morte do último exemplar na Polónia) faziam parte do drama da iniciação: os jovens tinham de enfrentar e matar a besta. Ao apossar-se dos chifres do animal, o pré-adulto (à época a adolescência não fazia parte do desenvolvimento humano) incorporava em si a pujança da alimária e o seu simbolismo de força, exibindo-os como troféus e emblemas de coragem, legitimando assim o seu ingresso na sociedade de guerreiros.

Aquilo que a antropologia nos ensina sobre estes ritos de iniciação indo-europeus — onde os jovens se identificavam também com lobos, símbolos de igual agressividade e temeridade — ganha uma escala real quando sentimos o chão tremer com o movimento de um grande herbívoro europeu. Aquele passo preliminar para o mundo adulto marcava uma mudança radical: o jovem passava a assumir uma função responsável na comunidade, deixando para trás a vivência no limbo descomprometido da puberdade e da infância. O touro, e por extensão este bisonte que tinha diante de mim, surge como a metáfora viva da soberania guerreira.

Ao evocar a ideia de força e ímpeto — o macho impetuoso e indomável —, Uruz é, ao mesmo tempo, água e fogo. É solar pelo fogo do seu sangue e pelo esplendor do seu sémen, a substância masculina capaz de criar a energia metabólica do corpo, a essência da vida, o gérmen da conceção e da geração por virtude fecundante da terra e dos animais. É sinónimo de virilidade no auge da juventude masculina que não conhece barreiras, sendo por isso uma força perigosa e instável.

Mas a grande lição que trouxe do Parque Biológico de Gaia não foi a da violência, foi a da contenção. Olhando para o bisonte, percebe-se que a sua força impulsiva deve ser estruturada e canalizada para um objetivo. Ele não corre com a urgência fútil dos nossos dias; ele permanece, maciço e impávido. É precisamente nessa força vital indomável, quando dominada e focada, que reside o poder de regeneração de Uruz: a energia bruta que reconstrói o corpo, fortalece a mente e traz a verdadeira cura. O bisonte que habita naquele Parque em Gaia não é apenas um sobrevivente da pré-história; é o lembrete de que o sagrado selvagem ainda respira mesmo ao lado da nossa civilização.

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